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Arquitetura sustentável vai além de selo verde

Arquitetos de cinco países da América Latina estarão em Fortaleza, de oito a dez de junho, para discutir sustentabilidade

A arquitetura moderna teve como marca registrada a racionalidade e a funcionalidade. Na contemporaneidade, sobretudo a partir da década de 1980, entra em cena o conceito de desenvolvimento sustentável. Em outras palavras: é preciso crescer com qualidade, considerando as pessoas e o meio ambiente.

Na década seguinte, eventos como a Eco-92 evidenciam a necessidade de ser criada uma nova consciência em torno da equação meio ambiente e desenvolvimento. A cultura do esbanjamento foi posta em xeque, uma vez que os desequilíbrios ecológicos começaram a sinalizar que os bens naturais são finitos.

A arquitetura não podia ficar de fora da discussão, pela função social que exerce na sociedade. Como defende o historiador italiano, Giulio Carlo Argan, "não é possível eliminar da arquitetura a sua função social: contribui para a vida", tanto das pessoas quanto do Planeta.

Assim, no início deste milênio, começam a ser delineadas as linhas que vão nortear o que se chama arquitetura sustentável. Hoje, cada vez mais seus conceitos, baseados em projetos que utilizam conforto térmico e acústico, baixo consumo de energia, uso racional de materiais, entre outros elementos, ganham espaço na sociedade.

Dilema

A arquitetura, bem como a indústria da construção, vivem um dilema. Enquanto as cidades crescem de forma desordenada, fazendo crer que a tendência à urbanização é inevitável, os recursos naturais dão um grito de alerta. Encontrar um denominador para essa equação constitui um dos principais desafios a ser encarado. Não apenas por arquitetos, urbanistas ou governantes, mas pela sociedade.

A arquitetura começa a rever os seus conceitos e, agora, não se trata apenas de uma mudança na estética das edificações, é preciso pensar uma nova forma de conceber o espaço urbano, levando em consideração as transformações pelas quais as cidades e meio ambiente passam na atualidade.

Com o objetivo de trazer essa discussão para Fortaleza, cidade que, a exemplo de outras metrópoles de países emergentes, convive com superpopulação, trânsito caótico, poluição, verticalização desenfreada e invasão dos seus espaços públicos, acontece de oito a 10 de junho, o Fórum Jovens Arquitetos Latino-Americanos: inserções numa realidade periférica. Serão realizadas 11 palestras e, no dia 10, o arquiteto Fausto Nilo vai apresentar o projeto de reordenamento da Avenida Beira-Mar.

As discussões serão construídas no contexto dos problemas sociais que permeiam as cidades, como por exemplo, a violência, crescimento desordenado e, no caso de Fortaleza, a construção de vários equipamentos para a realização da Copa 2014. O evento, uma realização da Universidade Federal do Ceará (UFC), através da Associação Técnico-Científica Engenheiro Paulo de Frontin (Fundação Astef), acontece na Fábrica de Negócios. A finalidade é promover a troca de experiências e discutir problemas urbanísticos comuns, além de mostrar um pouco da nova produção da arquitetura na América Latina, explica Bruno Braga, integrante da comissão organizadora do evento.

Participam do encontro arquitetos de seis Estados brasileiros: Paraíba, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. E de cinco países da América do Sul: Uruguai, Argentina, Colômbia, Equador e Chile. "Será uma oportunidade de cada profissional falar sobre as suas experiências e como estão sendo desenvolvidas".

Conforme Bruno Braga, os países latino-americanos estão investindo na promoção de uma arquitetura de qualidade, levando em consideração a escassez dos recursos, investindo na criatividade e na aposta de novos materiais.

O arquiteto cita a experiência colombiana de enfrentar a violência usando a criação de uma rede de bibliotecas públicas. "Os equipamentos estão inseridos em zonas degradadas da cidade", ressalta, afirmando ser necessário melhorar os espaços públicos.

Responsabilidade

Bruno Braga alerta para a responsabilidade dos profissionais, tanto no que diz respeito ao uso racional dos materiais, quanto na forma de execução do projeto. Esses conceitos, muitas vezes, não são usados de maneira correta. A concepção de arquitetura sustentável vai além da estética da construção e não se trata apenas de discurso. Não é "tentar parecer com um selo verde", critica. Considera ser necessário colocar em prática o conceito de sustentabilidade que vai além do uso de materiais ecologicamente corretos.

O arquiteto lembra de quatro pontos importantes que devem ser levados em consideração: Projeto e construção corretos do ponto de vista ecológico, ser economicamente viável, justo no quesito social e culturalmente aceito. Os princípios da arquitetura sustentável têm como base projetos com baixo consumo de água, reciclagem de materiais, uso racional de água, bem como das fontes naturais. O projeto deve interferir o mínimo no meio ambiente, respeitando a paisagem do terreno, legislação ambiental, material adequado e não esquecer da cultura.

Fique por dentro
Conforto e ambiente

Desde os tempos pré-históricos, o homem prima pelo conforto. Ao longo da história humana, é possível perceber esse desejo de adequação do homem ao seu meio, sendo a casa, no caso, a caverna um dos primeiros espaços a ser demarcado pelo homem ao deixar a condição de nômade. Concepção semelhante pode ser estendida à cidade, cujas primeiras foram construídas como formas de proteção. Hoje, as cidades constituem espaços de referência na vida das pessoas. As casas e as cidades estão inseridas em um contexto socioeconômico e cultural que vai se adaptando a cada período. Atualmente, a preocupação com o meio ambiente é um fator determinante na concepção das cidades e no espaço individual das pessoas. A arquitetura sustentável é uma realidade em qualquer escala, passando por edificações individuais, condomínios de luxo e também na habitação social.

Iracema Sales
Repórter

Fonte: Diário do Nordeste

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