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O lago da riqueza emergente

É tarde de sábado de Aleluia e o Pier JTR está lotado. O restaurante fica na extremidade nordeste de uma península de 170 hectares no Lago de Furnas, em Minas Gerais. A maioria dos frequentadores chega de lancha - e há várias delas atracadas próximo a um jardim forrado de palmeiras. Há quem prefira ir de helicóptero, como Paulo Gonçalves, dono da siderúrgica Siderbras, de Divinópolis (MG).


O empresário se instalou em uma mesa na companhia de Dílson e Kássio Fonseca, pai e filho donos da Minerita, uma das últimas reservas significativas de minério de ferro em Minas Gerais ainda fora do controle das grandes mineradoras. A música alta força todo mundo a falar alguns tons acima do normal - especialmente o diretor comercial do Terramare Península, condomínio de luxo que está sendo erguido no local. Ele se aproxima dos empresários, abre o catálogo e começa: "O conceito aqui é sustentável".

A criação do Terramare é um exemplo do que vem acontecendo nos arredores de Capitólio, cidade de 8 mil habitantes no interior de Minas. "Tem muita gente que normalmente ia para outros destinos, como Angra dos Reis, e está vindo para cá", diz Jayme Resende, sócio do empreendimento. No meio do caminho entre Belo Horizonte e Ribeirão Preto, a região é um reduto tradicional das elites mineira e paulista devido ao Escarpas do Lago. O bairro, que tem um clube de mesmo nome, foi desenvolvido pela construtora Mendes Júnior há 30 anos e hoje tem 800 casas, um heliporto e garagem para 300 barcos. Entre os proprietários de casas estão Rubens Menin, fundador da construtora MRV, e Marcio Lacerda, prefeito de Belo Horizonte. "O PIB mineiro está aqui", diz o advogado Leopoldo Portela Júnior, consultor técnico-legislativo do governo de Minas que tem casa no bairro há 20 anos.

Ocorre que o crescimento recente da economia e das fortunas locais elevou a cidadezinha a um novo patamar. O dinheiro do agronegócio, da construção civil e da mineração fez o preço dos imóveis triplicar nos últimos cinco anos e já não há mais terrenos de marinas (em contato com a água) disponíveis em Escarpas do Lago. "Se alguém quiser vender, deve sair entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões", estima Hélio Queiroz, presidente do clube Escarpas do Lago.

Ilha particular. Diante da demanda aquecida e da falta de espaço, quatro loteamentos foram lançados no ano passado em Capitólio - dois deles de luxo. Fazia 10 anos que nenhum loteamento era criado na cidade. A euforia se estendeu a Guapé, a 30 km dali. Além do Terramare Península, que já recebeu aprovação e começou a ser construído, dois novos empreendimentos dependem de licença da prefeitura.

Um deles será uma ilha particular, com acesso apenas de helicóptero ou barco. O outro é o Península Escarpas, com 76 lotes. Criado por um grupo de nove amigos, o objetivo inicial do projeto era juntar a confraria durante os feriados. "Doze dos terrenos são dos sócios. Os outros nós vamos vender porque estamos bem localizados e a procura é muito grande", diz Samur Junqueira Oliveira, dono de concessionárias de veículos em Belo Horizonte e principal sócio.

Não só o ritmo de lançamentos acelerou como os novos empreendimentos tornaram-se maiores e mais luxuosos. Tome-se o caso do Terramare, uma sociedade entre o investidor Jayme Resende e Antonio Carbonari Netto, fundador e presidente da rede de ensino Anhanguera. São 559 lotes - ou "terrenos", como preferem os representantes comerciais o termo "lote" é quase uma ofensa.

Entre as opções estão marinas de 8 mil metros quadrados por até R$ 4 milhões (há alternativas mais modestas, como terrenos com vista para o lago de R$ 240 mil). Uma pista para aviões, que corta a península, está em fase final de construção. Quando concluído, o projeto terá ainda uma espécie de shopping center, spa e um clube equestre. Até agora, 84 terrenos foram vendidos.

Nenhum empreendimento reúne tantos atributos como o Quintas Ponta do Sol, de Régis Campos, dono da construtora Emccamp. Sua empresa tornou-se uma das maiores referências do País em casas populares. Em Capitólio, porém, seu projeto pessoal é a antítese do modelo de baixo custo. Há apenas 20 lotes, de dez mil metros quadrados cada um. Todos são marinas. Uma pista de avião, que já está pronta, chega até cada um dos terrenos. É um modelo conhecido como "fly in". Os donos das futuras mansões poderão, literalmente, estacionar as aeronaves na garagem de casa. "Nem teve lançamento formal. Vendi só para amigos. Sobraram dois lotes", diz Campos.

Os amigos em questão são pessoas como Zezé Perrella, presidente do clube de futebol Cruzeiro, empresário e ex-deputado federal, e Márcio Alaôr de Araujo, vice-presidente do banco BMG. "Por enquanto, comprei apenas como investimento. Com a valorização, posso vender nos próximos anos", diz Araujo.

Bolha. Junto com o frenesi vem, inevitavelmente, a dúvida quanto ao futuro dos investimentos. A última onda de lançamentos na região aconteceu na década de 90. Na época, três loteamentos foram lançados e, até agora, nenhum deles vendeu todos os seus terrenos. A infraestrutura dos lotes, na verdade, só está sendo concluída agora.

Os empreendedores, claro, acreditam que se trata de um momento completamente diferente. "Quando se fala em crescimento da renda, todo mundo lembra da classe C. Mas milhões de pessoas migraram para as classes A e B", diz Carbonari. "Se há demanda para mais de 500 lotes (oferta do Terramare)? Acho que é pouco para a classe A +."

"Acredito na demanda forte porque a economia vai bem, o destino turístico se consolidou e Escarpas do Lago já está lotado", diz Frederico Azevedo, sócio da construtora Medina, responsável pelo empreendimento Marinas Portobello. O empresário tem uma península desde 1978, mas afirma que só agora encontrou as condições ideais para o lançamento. Cerca de dois terços de seus 90 lotes já foram vendidos.

Antes de se provar, porém, os novos condomínios em geral - e o Marinas Portobello em específico - têm um desafio mais urgente. O Ministério Público Federal de Minas Gerais tem acompanhado de perto os projetos e conseguiu uma liminar impedindo a construção e venda de novos terrenos nas margens do loteamento. Em sua ação, o MP alega que, como está localizado em área de preservação permanente, o Marinas Portobello deve manter intacta uma extensão de 100 metros a partir do lago.

Oficialmente, a construtora Medina informou que possui licenças ambientais estaduais e do Ibama e que tomou medidas para reverter a liminar, que tem caráter provisório. "Não queremos impedir os empreendimentos, mas respeitar as leis ambientais", diz a procuradora Ludmila Oliveira. Além desse caso, o MP já enviou uma recomendação formal para que outro condomínio se adeque à mesma regra e mantém investigações a respeito de um terceiro. Pelo visto, o trabalho das construtoras vai muito além de atrair milionários.




Fonte: Estadao.Com.Br

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