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Nossa casa, nossa mãe

Em nossa tradição, a casa de família é um ente vivo, demarcada por significados, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora. Além de sua arquitetura física, a dos traços presentes na mente e nos projetos dos arquitetos e dos mestres de obra, a casa tem também uma arquitetura simbólica, a da mente de seus moradores. A começar dos jardins e das plantas escolhidas para compô-los. Tive oportunidade de discorrer extensamente sobre isso e a importância simbólica das cores e dos cheiros em meu livro sobre A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008).


Já existentes nos quintais, os jardins se disseminaram na frente das casas paulistanas a partir do fim do século 19 para começar a desaparecer na segunda metade do século 20. As novas construções reguladas pelo primado da especulação imobiliária se tornaram avessas ao diálogo com as flores, as plantas e os símbolos da tradição popular. A especulação e a garagem do automóvel acabaram ditando a morte dos jardins domésticos. Sobraram alguns por aí.

Mesmo nas casas que já não têm jardim, pode-se sempre encontrar alguns vasos de plantas, não raro a guiné, a arruda, o alecrim, a espada-de-são-jorge, a venenosa comigo-ninguém-pode, plantas mágicas, carregadas de poderes invisíveis. Elas erguem uma muralha simbólica e protetiva contra o mau-olhado, o azar, a inveja, o maligno. Podemos já não acreditar nisso, mas por sim ou por não...

Além das plantas mágicas, os belíssimos jardins que durante tanto tempo existiram diante dos palacetes da Avenida Paulista, como os pequenos, mas não menos belos, jardins das residências da Vila Pompeia, das Perdizes, do Ipiranga, do Belenzinho, da Lapa, acrescentaram um cômodo colorido, odorífico e simbólico à frente das novas residências. Era o começo da difusão da mentalidade da vida privada, do distanciamento entre a casa e a rua, de um certo isolamento doméstico na individualidade e na privacidade da família e de cada um.

Mas o lado de dentro da casa de família (ou do apartamento!) também tem a sua arquitetura simbólica. Luís da Câmara Cascudo explicou esse lado da casa brasileira nos cuidados relativos à morte e aos mortos.

Pé da cama. A ordem na disposição da cabeceira e do pé da cama é fundamental para afastar o perigo da morte. O pé da cama deve estar na direção oposta à saída principal da casa, porque essa é a direção de saída do corpo do defunto, os pés para fora e a cabeça para dentro. O oposto da posição de nascimento: a cabeça do bebê para fora do corpo da mãe e os pés para dentro. A casa, em nossa cultura popular, é uterina, negação da morte. A referência simbólica de sua arquitetura é o corpo da mulher, o corpo sagrado da mãe, o lugar de origem da vida. A casa é, para nós, o monumento do imaginário matriarcal que rege nosso modo de ser e nosso destino.




Fonte: ESTADÃO.COM.BR/São Paulo

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